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PRA NÃO DIZER QUE SÓ FALEI DE RATOS!
Tem uma pequena árvore no quintal de casa, esses dias vi um tufo de mato no chão, era um ninho,
olhei dentro, talvez encontrasse ovos, mas me surpreendi e vi pequenos pássaros.
Tinha um amigo meu aqui no escritório e o chamei, mostrei e ele se encantou, o bicho gosta de
tudo que é animal, e ficou bobo, resolvemos colocar o ninho na árvore, pegamos a escada e
demos um jeito, mas a noite eu lhe perguntei.
-será que você pos o ninho certo? Ou você virou o buraco pra cima.
- mas num é não?
- acho que não, acho que é do lado.
No outro dia fui ver o ninho, e estava no chão tinha outro buraco do lado, chamei minha mãe.
- veja mãe nem só de rato vive a favela.
Ela olhou e gostou muito, adora pássaros e cria periquitos, eu lhe mostrei dois
pássaros filhotes que estavam no muro, peguei o ninho e vi um lá dentro,
de repente o ninho balançou e um saiu voando, e depois saiu outro, ela correu e conseguiu
pegar um e colocamos dentro do ninho, os bicho tava tudo doido, olhando o mundo pela primeira vez.
Um deles fugiu mas vi outro pássaro o seguindo, talvez fosse sua mãe, pegamos a
escada e colocamos o ninho na árvore de novo.
Esses dias encontrei o ninho no chão novamente, estava todo aberto, como algo
que já foi usado o suficiente, no mesmo dia vi a mãe dos pequenos, pousou no
portão durante alguns segundos, olhou em direção ao ninho e saiu, fiquei como
os meus botões, será que avisaram onde foram?
As coisas tendem a ser assim, as vezes quando me deparo devorando um livro
porque no fim tenho que ler, paro, olho e me sinto muito mal.
Queria voltar ao tempo que lia suavemente, devorando palavra por palavra, mas
obedecendo as virgulas para que elas fizessem um sentido maior.
Fui para o jardim, sentei no banco branco que o ex dono da casa me deixou e
li Hesse novamente, como fazia aos meus 15 anos, a sensação veio, nada de
desgosto e frustração, e apesar de toda a batalha da vida, eu lia sobre o sol,
sobre o céu que não é mais tão preto, sobre historias contadas como devem ser,
calmamente, levemente como uma caminhada em boa companhia.
O sol bateu de um lado do banco, eu recuei para o outro, e de repente voltei para onde
estava, senti o calor, o livro também, as páginas se iluminaram, a história continuou,
um vento veio ao meu encontro e me fez o favor de aliviar uma mente as vezes tão cansada.
Crianças passavam na rua, minhas mãos de datilógrafo não doíam mais, segurava o livro e
olhava para as árvores, suas raízes e seus detalhes que vistos com atenção deixam a mostra
a diferença que todos nós temos.
Voltei para dentro de casa, pensei em alguns discos, e me desculpe o Zeca Baleiro e o Chico
mas nesse dia nenhum som se casava com aquilo, veio-me frases, pedaços de vidas,
restos de fotos, mas após pegar um simples copo de café, e ver ainda sobre o sofá
discos de Paulo Sérgio, eu fui para o banco branco e esperei somente pelos pássaros,
talvez os pequenos pássaros que eu por muita sorte segurei ainda dentro do ninho.
Isso eu não comprei, isso eu não paguei, não achei num shopping, nem tive que roubar,
isso veio de graça, e acho que isso que é a vida.
Ferréz
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Pra não dizer que só falei de ratos!(Ferrez)
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